
A neuropatia é uma das complicações mais comuns da diabetes mellitus tipo 1 e 2, e é a neuropatia mais comum dos países desenvolvidos.1,2 Estima-se que cerca de 90% dos doentes com diabetes irão desenvolver neuropatia.1,2 A apresentação clínica mais comum da neuropatia diabética é a polineuropatia distal simétrica. Por norma, as extremidades dos membros são as primeiras a ser afetadas, ocorrendo progressão proximal característica, com padrão de distribuição em meia e luva.3
Cerca de 30% dos diabéticos com neuropatia diabética experienciam dor.4 A dor pode ser descrita como formigueiro, ardor, em facada, lancinante ou até comparada à sensação de choque elétrico e localiza-se preferencialmente nos pés.4,5 A intensidade pode ser de moderada a extremamente severa e incapacitante, muitas vezes com agravamento no período noturno, a ponto de causar distúrbios de sono.5
A dor pode ter um perfil contínuo e ser inclusivamente acompanhada de alodinia*, com um impacto negativo na qualidade de vida dos doentes, na capacidade de desempenho de atividades da vida diária e podendo levar ao isolamento social e a síndromes depressivas.5
É amplamente aceite que a hiperglicemia tem efeitos tóxicos sobre os nervos periféricos e que será um dos mecanismos fisiopatológicos que estão na base da neuropatia diabética. Contudo, parece não existir correlação direta entre a intensidade da dor associada à neuropatia diabética e a extensão da lesão dos nervos periféricos, pelo que a patogénese da neuropatia diabética dolorosa ainda não está totalmente esclarecida. Têm sido propostas algumas hipóteses para explicar a etiologia da neuropatia diabética dolorosa, nomeadamente:2
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Perturbações metabólicas e autoimunes acompanhadas de ativação das células da glia
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Alterações da vascularização dos nervos periféricos
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Diferenças na expressão de canais de sódio e cálcio
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Aumento da vascularização do tálamo, com indução de um desequilíbrio dos mecanismos descendentes de facilitação/inibição da dor.
Atualmente, já foram identificados diversos fatores de risco que se associam tendencialmente ao aparecimento da dor na neuropatia diabética, tais como:5
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Idade avançada
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Agravamento da tolerância à glucose
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Diabetes de longa duração
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Álcool
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Tabaco
Abordagem clínica
A abordagem clínica associada à neuropatia diabética dolorosa consiste na otimização do controlo glicémico, exclusão de outras possíveis causas de dor neuropática periférica e prescrição de medicação para alívio dos sintomas dolorosos.2,4 Paralelamente, devem promover-se hábitos de vida mais saudáveis que devem ter como objetivos a perda de peso, o controlo individualizado da glicémia e da pressão arterial, incentivando a cessação tabágica e a diminuição do consumo de álcool.6
Apesar de tudo, estas estratégias resultam em melhorias satisfatórias em apenas cerca de 50% dos doentes.2 A otimização do controlo da neuropatia diabética dolorosa beneficiará de uma melhor compreensão dos seus mecanismos fisiopatológicos e da identificação de alvos terapêuticos que permitirão o desenvolvimento de novos fármacos e de orientações terapêuticas mais adequadas e com melhores resultados.
*dor provocada por estímulo normalmente indolor.
